Na linha de frente das emergências químicas: o papel do Corpo de Bombeiros
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Esse artigo foi escrito a partir de uma entrevista realizada entre a porta-voz do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo e a equipe Hazmat Line em Dezembro de 2025
Os bombeiros são os líderes na contenção de emergências, incluindo aquelas que envolvem produtos perigosos. Nessas situações de alto risco, são eles que assumem a coordenação das operações e coordernam a atuação de outros órgãos públicos e empresas privadas que também participam da resposta. Diariamente, esses profissionais colocam a própria segurança em risco para proteger pessoas, animais, o meio ambiente e comunidades inteiras.
Nós, da Hazmat Line, tivemos a oportunidade de entrevistar a porta-voz da instituição em São Paulo, Tenente PM Olivia Perrone Cazo, para entender com mais profundidade como ocorre a atuação dos bombeiros em emergências envolvendo produtos perigosos. A Tenente iniciou sua trajetória na Polícia Militar do Estado de São Paulo em 2016 e, três anos depois, passou a integrar o Corpo de Bombeiros, onde também atua há cerca de dois anos como porta-voz da instituição.
Durante a conversa, ficou claro para nós como o acesso rápido a informações corretas pode fazer uma grande diferença na segurança e na eficácia da resposta a uma emergência química. Além de informações técnicas sobre o produto envolvido, também são extremamente úteis dados sobre as instalações — como saber qual a melhor rota de acesso à edificação, a localização de válvulas, sistemas de contenção e outros pontos críticos. Informações sobre possíveis vítimas — como nome, descrição das roupas ou possíveis locais onde possam estar — também contribuem diretamente para que os bombeiros elaborem um plano de ação mais ágil e seguro.
Uma das conclusões que tiramos dessa conversa foi que o telefone de emergência 24 horas, quando utilizado, pode acelerar significativamente a obtenção de informações críticas e facilitar a elaboração de um plano de ação pelas equipes de resposta. Embora seja um recurso exigido pela regulamentação, muitas vezes ele ainda é pouco conhecido ou pouco utilizado, tanto por equipes de resposta quanto por funcionários das próprias empresas que lidam com produtos perigosos. Vale reforçar que esse número deve estar disponível em documentos como a Ficha de Dados de Segurança (FDS), fichas de emergência e documentos de transporte. Porém, mais do que simplesmente constar nesses documentos, o uso dele deve ser incorporado aos processos de resposta a emergências para que, em momentos críticos, deixe de ser apenas um número no papel e se torne mais uma ferramenta importante para apoiar a tomada de decisões nas primeiras fases da ocorrência.
Fica aqui uma reflexão: como ampliar o conhecimento da comunidade que trabalha com produtos perigosos sobre a função desse número? Mais do que um recurso para os bombeiros, ele também pode ser utilizado por outros solicitantes presentes no local da ocorrência — motoristas, representantes de outros órgãos públicos, funcionários da instalação ou até mesmo testemunhas — para obter orientações iniciais enquanto aguardam a chegada das equipes de resposta.
Outro ponto importante reforçado ao longo da entrevista é que, em cenários de emergência, a liderança operacional é dos bombeiros. São eles que coordenam as ações no local e definem as medidas de segurança necessárias para todas as equipes envolvidas na contenção da ocorrência. Por isso, tanto equipes de apoio — públicas ou privadas — quanto a população em geral devem sempre seguir as orientações e determinações do Corpo de Bombeiros durante a resposta à emergência.
A seguir, compartilhamos os principais trechos da entrevista. Vale destacar que, embora o Corpo de Bombeiros seja organizado por estado, existe um esforço constante de integração nacional. O Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Estado de São Paulo é um dos maiores do país, contando com cerca de 8.500 profissionais, 267 estações e 2.658 viaturas. Durante nossa conversa, a Tenente explicou que há comunicação direta entre os comandantes dos Corpos de Bombeiros de diferentes estados por meio da Liga Nacional dos Corpos de Bombeiros Militares do Brasil (Ligabom), que promove encontros periódicos e mantém um canal ativo de troca de experiências e alinhamento operacional.
Formação e estrutura para atendimento a emergências com produtos perigosos
Sobre a atuação em emergências com produtos perigosos, a Tenente PM Olivia afirmou:
“Todos os bombeiros passam uma formação básica sobre produtos perigosos na escola de bombeiros.”
Essa formação permite que qualquer bombeiro faça uma primeira avaliação no local e determine se é possível prosseguir apenas com equipamentos das viaturas padrão — combate a incêndio e salvamento — ou se é necessário acionar uma “viatura PP” (produtos perigosos), dedicada exclusivamente a emergências deste tipo. Essas viaturas são equipadas com roupas de nível A, B e C, bacias de contenção, EPIs especializados e outros materiais técnicos essenciais para um atendimento seguro.
O estado de São Paulo conta com oito viaturas PP, sendo duas na capital (uma delas utilizada para instrução na escola de bombeiros). As demais estão distribuídas entre o litoral e o interior.
A importância crítica das informações para a elaboração do plano de ação
Quando o solicitante aciona o atendimento dos bombeiros pelo 193, a prioridade absoluta é chegar rapidamente ao local:
“No momento da ligação nós temos uma cobrança interna muito grande para chegar o mais rápido possível no local da ocorrência.”
Por isso, na primeira chamada, apenas o essencial é coletado:
“Quando uma pessoa liga para o 193 a gente pega informações bem iniciais, como o endereço do local, se tem vítimas, quantas vítimas são e qual que é a situação — se é um incêndio, se é um vazamento, se é numa empresa, se é numa residência.”
A maior parte das informações relevantes sobre os produtos perigosos envolvidos na ocorrência não é obtida durante essa ligação inicial. Às vezes, a viatura é deslocada desconhecendo que o acidente envolve produtos perigosos e essas informações são apenas coletadas no local.
No trajeto, os bombeiros mantêm contato com o solicitante sempre que possível e contam também com apoio de viaturas da Polícia Militar próximas ao local para ajudar a coletar informações adicionais.
Ao chegar ao local, é comum que a percepção inicial da emergência mude:
“Mas a ocorrência é moldável, nós vamos verificando os novos riscos e solicitando novos apoios e moldando o cenário.”
No local, com as novas informações coletadas, é possível realizar “uma triagem mais minuciosa”. Placas de número ONU (quando visíveis) e o Guia de Respostas de Emergência (também conhecido como Guia Abiquim) presente em todas as viaturas auxiliam, mas nem sempre são suficientes.
Por isso, é comum que o Corpo de Bombeiros busque informações diretamente com quem conhece o produto ou com outros órgãos públicos:
“No local também é comum tentar contato com o representante da empresa, com o motorista ou alguma outra pessoa responsável para obter mais informações. Em alguns casos o corpo de bombeiros também entra em contato com a CETESB.”
Durante a emergência com produtos perigosos, a liderança e coordenação da resposta e do Corpo de Bombeiros
Em ocorrências envolvendo produtos perigosos, a coordenação da resposta inicial cabe ao Corpo de Bombeiros, que assume a liderança da operação até que a situação emergencial esteja devidamente controlada.
Mesmo quando outros órgãos públicos ou empresas especializadas participam do atendimento, a gestão da emergência permanece sob responsabilidade dos bombeiros durante a fase crítica da ocorrência.
Ao chegar ao local, a primeira ação da equipe é avaliar os riscos e estabelecer as zonas de segurança, incluindo a delimitação da chamada zona quente — área diretamente afetada pelo incidente. Essa região é imediatamente isolada, e cabe aos bombeiros determinar quem pode acessá-la e em quais condições.
Também é função da equipe avaliar a necessidade de acionar outros órgãos de apoio, como a Defesa Civil ou órgãos ambientais estaduais, dependendo da natureza e da gravidade da ocorrência.
Como responsáveis pela condução da emergência, os bombeiros têm a missão de controlar o evento no menor tempo possível, garantindo ao mesmo tempo a segurança das vítimas, das equipes de resposta e da população ao redor.
Como resume um princípio operacional frequentemente aplicado nesses atendimentos:
“Quem vai atuar na zona quente é o bombeiro.”
A sequência operacional de atendimento
Para conduzir esse tipo de ocorrência, o Corpo de Bombeiros segue uma sequência operacional estruturada, que orienta as ações desde a chegada ao local até o encerramento da emergência:
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APROXIMAR-SE – de forma segura, considerando direção do vento e isolamento imediato de precaução.
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IDENTIFICAR – identificar produtos envolvidos e analisar riscos.
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ISOLAR – isolar a área com base no risco identificado.
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SALVAR – resgatar vítimas com o EPI adequado.
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CONTROLAR – conter vazamentos, confinar derramamentos e controlar o evento.
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DESCONTAMINAR – pessoas, materiais e equipamentos.
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FINALIZAR A EMERGÊNCIA – restabelecimento das condições operacionais.
A Tenente reforça a importância do primeiro passo técnico:
“A identificação com certeza é o passo mais importante porque vai delimitar o tanto que vamos isolar e qual vai ser o plano de atendimento — se é um gás, se é um líquido, se ele é tóxico, inflamável… faz toda a diferença na hora da criação desse plano de ação.”
A atuação do Corpo de Bombeiros é encerrada quando a situação deixa de apresentar risco imediato. Segundo a oficial:
“Quando você olha em volta e o local está em segurança, todas as vítimas salvas, todos derramamentos contidos, todos vazamentos sanados… não vai acontecer mais nada emergencial, aí encerra a atuação do Corpo de Bombeiros.”
Isso significa que, em muitos casos, ainda existem atividades posteriores à emergência, como:
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transbordo de produto remanescente
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remoção de veículos ou equipamentos envolvidos no acidente
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avaliação ambiental da área
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limpeza e remediação da contaminação
Essas etapas, no entanto, não fazem parte da missão operacional do Corpo de Bombeiros. Após a estabilização da emergência, a continuidade das ações — incluindo logística, avaliações ambientais e recuperação da área afetada — passa a ser responsabilidade de outros órgãos competentes ou de empresas especializadas.
Atendimento a vítimas: um processo pré-hospitalar
Se há vítimas, o atendimento realizado pelo bombeiro é pré-hospitalar. A equipe de campo se comunica via rádio com um médico de plantão, que analisa o quadro e determina qual hospital é o mais próximo e mais adequado.
Por exemplo, em acidentes na capital envolvendo exposição a produtos perigosos, a vítima é encaminhada ao hospital especializado nesse tipo de atendimento.
Por se tratar de um atendimento pré-hospitalar, não se realiza contato com centros de toxicologia durante a operação — a prioridade é estabilizar e encaminhar a vítima ao hospital.
O número 193 e seu uso correto
Conversamos também sobre um erro ainda muito comum em Fichas com Dados de Segurança (FDS): a inclusão do 193 — o telefone do Corpo de Bombeiros — como número de emergência.
Embora o 193 deva, sim, ser acionado sempre que houver suspeita ou confirmação de uma emergência que necessite intervenção de uma equipe de resposta in loco, a Tenente PM Olivia foi categórica ao esclarecer:
“O 193 é um telefone para acionamento de viatura, não é um telefone de informação.”
“A partir do momento que você discou 193 e passou o seu endereço e a situação, uma viatura vai ser deslocada para o local para resolver a situação.”
Ou seja:
✔️ O 193 é um canal operacional, usado exclusivamente para mobilizar equipes ao local da ocorrência.
❌ Ele não é um serviço de orientação ou informação sobre produtos químicos ou perigosos.
O 193 não tem a função, nem a obrigação legal, de fornecer instruções técnicas por telefone.
Durante uma emergência real — como a Tenente reforçou diversas vezes — o acesso rápido a informações confiáveis é crítico para estruturar um plano de ação seguro e eficaz. É justamente nesse ponto que o número de emergência exigido pela NBR 14725 se torna indispensável.
Como empresas e sociedade podem ajudar os bombeiros
Ao final da entrevista, perguntamos como empresas e cidadãos podem apoiar o trabalho dos bombeiros. A resposta foi objetiva e poderosa:
“O que mais nos ajuda são as informações. Os produtos perigosos são uma gama gigantesca… por mais que você tenha muitos anos de serviço, você com certeza nunca vai ter lidado com todos os tipos. Então, quando a gente chega no local, nós estamos prontos pra nos expor ao risco e preparados pra isso. Quanto mais informações recebermos, será melhor pra expor menos o nosso bombeiro ao risco e também conseguir sanar mais rápido aquele problema.”
As estações de bombeiros não recebem doações em dinheiro, mas aceitam doações de EPIs e equipamentos, especialmente importantes em cidades menores com presença de indústrias químicas.
Agradecimento
A Hazmat Line agradece profundamente à Tenente PM Olivia Perrone Cazo e ao Corpo de Bombeiros da Policia Militar do Estado de São Paulo pela excelente entrevista e pela generosidade em compartilhar conhecimento crítico para o fortalecimento da segurança de produtos perigosos no Brasil.
Para quem deseja saber mais sobre a atuação do Corpo de Bombeiros de São Paulo, existe um canal oficial aberto ao público:
📩 imprensabombeiros@policiamilitar.sp.gov.br
Além disso, vale a pena conferir o site do Corpo de Bombeiros: www.corpodebombeiros.sp.gov.br